terça-feira, 28 de junho de 2016

Conto um.

- Eles estão mortos!
E lá estava eu: escorregando na parede de um dos corredores da faculdade, como se estivesse em um filme de drama, com o celular prensado no meu rosto e mais lágrimas caindo que eu imaginava que seria possível. Fiquei ali por alguns minutos, sozinha, com os olhos fixos na parede e uma única frase na cabeça: não pode ser verdade!
Quando, finalmente, recobrei a consciência, percebi alguém ao meu lado. Ela me ajudou a levantar e me deu um abraço. Ouvi um "sinto muito" misturado com um pequeno soluço; chorei um pouco mais no colo dela.
Não, eles não mereciam. Nem eles, nem nenhum de nós. Perguntei para Deus, no caminho de volta para casa, o porquê d'Ele sempre me tirar as pessoas que eu amo. Ele ainda não me respondeu. Talvez essa seja uma das inúmeras questões que eu nunca terei resposta.
- Pai? Como foi isso?
Nunca vi os olhos dele marejados dessa forma o tempo todo. A prova de que família não tem nada a ver com sangue.
- Bateram de frente. Foi instantâneo.
Eu sempre, em toda a minha vida, imaginei um acidente de carro que eu estivesse dentro. Era sempre desesperador. Mas nunca imaginei perder alguém nesse acidente, era sempre eu que morria. Naquele dia, eu também morri, mesmo não estando no acidente. Uma parte de mim morreu com eles.
Começou a chover. Lembrei da minha mãe dizendo que quando chove no enterro significa que a pessoa foi para o céu. Não tenho dúvidas disso!
Nós nos abraçamos em conjunto, todos doloridos demais para falar, mas necessitados demais para ficar longe. Depois de muito receber colo reparei algumas pessoas lembráveis. Tinha alguém ali que eu acabei esquecendo por tudo que aconteceu e, olha, que eu jurava que jamais esqueceria. Sentia, de longe, uma certa vontade de me ajudar e um desespero de não poder, só de olhar naqueles olhos.
E, de repente, ainda concentrada em decifrar alguém, despertei com um excesso de tudo e uma explosão de necessidade: preciso de alguém!
Me permiti experimentar a solidão do velório antes de dizer adeus definitivamente. Sabia o que eu precisava, sabia que só assim teria. E, então, alguém veio me abraçar, em silêncio, se comunicando apenas pela linguagem corporal dos braços abertos prontos para me receber.
Chorei mais um pouco, menos que antes, me sentia consolada. Mas não soltei, permaneci no abraço silencioso, que acalmava ambos, por muito tempo, sentindo constantes beijos na testa e carinho no cabelo, até ouvir um cuidadoso "estou aqui"...
"Não, não está!", e me afastei. "Não adianta nada estar aqui agora se amanha eu estarei sozinha, não posso me iludir com a sua presença, vai doer depois porque nada vai me fazer superar tudo isso como você faria".
Confesso que olhar naqueles olhos era bem mais interessante que ver os carros passando na avenida, mas escolhi a segunda opção para não cair em tentação. Mas de nada adianta quando alguém sabe exatamente o efeito que causa. Senti apenas meu corpo ser envolvido pelos braços e a voz bem baixa no meu ouvido: "continuo aqui".
Ok! Não vou brigar agora, nem resistir. Preciso desabar em dor de ter perdido duas das pessoas mais importantes da minha vida de uma vez.
(...)

2 comentários:

  1. Nossa que lindo simplesmente adorei! Você me fez envolver com o texto, amo esta sensação.

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    1. Ai, quanta felicidade ler isso. Que bom que gostou, muito obrigada ♥

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